Meu filho já cresceu e eu nunca recebi. Ainda dá tempo?
O bebê virou criança, já anda pela casa e conversa. Numa roda qualquer, alguém comenta que recebeu do INSS por causa do parto, e você descobre que nunca recebeu nada. Aí vem a pergunta: ainda dá tempo?
A mãe que achou que tinha perdido a vez
Débora trabalhou quatro anos registrada numa padaria e pediu as contas em junho de 2021. Engravidou meses depois, sem emprego e sem pagar o INSS. O filho nasceu em março de 2022. Uma vizinha garantiu que, sem carteira assinada no dia do parto, não havia nada a receber.
Em setembro de 2026, uma prima contou que tinha recebido o benefício desempregada. Débora achou que, quatro anos e meio depois do parto, era tarde demais.
Não era. O prazo para pedir é de cinco anos, e o dela vai até março de 2027. A vizinha também tinha esquecido o período de graça, que é o tempo em que a proteção do INSS continua depois que as contribuições param.
Para quem sai de um emprego, esse tempo é de pelo menos 12 meses. O parto veio nove meses depois da saída da padaria, com a proteção ainda de pé. Nesse caso quem paga é o próprio INSS, e não o antigo patrão.
Os quatro meses de benefício ficaram todos em 2022 e viraram atrasados, pagos com correção. O valor sai de uma média dos salários de antes da saída e não fica abaixo de um salário mínimo por mês.
A história de Débora é ilustrativa, mas cada data segue a regra escrita. O resto do texto mostra como o prazo é contado em cada caso, quem paga, o que o INSS confere e o que acontece depois do pedido.
Qual é o prazo para pedir o salário-maternidade?
Cinco anos. A norma interna do INSS, a Instrução Normativa 128, diz que o pedido pode ser feito nesse prazo, contado do fato gerador, que é o acontecimento que dá origem ao benefício: o parto, a adoção, a guarda para adoção ou o aborto não criminoso.
Quem pede com atraso usa o mesmo caminho de todas: o aplicativo ou site Meu INSS, ou o telefone 135. Não há multa pela demora nem desconto pelo atraso.
O direito não some, o dinheiro é que some
O prazo vem do artigo 103 da Lei 8.213: as parcelas não pagas nem cobradas ficam velhas demais em cinco anos, o que a lei chama de prescritas, contados da data em que deveriam ter sido pagas.
O direito ao benefício continua existindo. O que se perde com o tempo são as parcelas que não foram pagas nem cobradas na época certa.
No salário-maternidade, essa diferença quase não aparece. O benefício são 120 dias de parcelas, todas devidas logo depois do parto. Passados cinco anos, todas ficaram velhas demais, e não sobra valor para receber.
Quem pesquisa pode esbarrar num limite de 180 dias depois do parto. Ele foi criado por medida provisória em 2019, ficou de fora quando ela virou lei e hoje aparece riscado no texto oficial da Lei 8.213. Não vale.
De quando começa a contar esse prazo?
Quando houve parto
A conta começa, em regra, no dia do nascimento, o que está na certidão. Vale também para o bebê que nasceu sem vida, e nesse caso o benefício continua sendo de 120 dias.
Quem se afastou do trabalho antes, nos 28 dias que a lei permite antes do parto, tem um detalhe: o INSS pode tomar a data do afastamento como marco, o que adianta o fim do prazo em até quatro semanas.
Quando houve adoção ou guarda
Vale a data em que a decisão da adoção ficou definitiva, ou a do termo de guarda para fins de adoção, e não o nascimento da criança. O benefício é de 120 dias para criança de até 12 anos, pago pelo próprio INSS, inclusive ao pai que adota.
Quando houve aborto não criminoso
O benefício é de duas semanas, a partir da data do aborto comprovado por atestado médico, e o prazo de cinco anos conta dessa data.
Quando a mãe morreu
Aqui o prazo é outro, e muito mais curto. Se a mãe que tinha direito morre, o benefício passa ao marido ou companheiro, desde que ele também esteja protegido pelo INSS. Ele precisa pedir até o último dia em que terminaria o salário-maternidade dela.
Esse pagamento não existe se o bebê também morreu ou foi abandonado.
Quando há mais de um filho
Cada nascimento tem o seu relógio, e eles correm separados. A mesma mãe pode ter perdido o prazo do filho mais velho e ainda estar dentro do prazo do mais novo. Gêmeos são a exceção: parto de mais de um bebê gera um benefício só.
A mãe com menos de 16 anos tem mais tempo
A norma do INSS segue a lei, que protege os menores: o prazo não corre contra quem tem menos de 16 anos. Para ela, os cinco anos só começam no dia seguinte ao aniversário de 16.
Uma adolescente que teve o filho aos 15 anos, portanto, pode pedir até completar 21. O INSS paga o salário-maternidade à mãe com menos de 16 anos por ordem de uma ação civil pública, desde que ela cumpra os demais requisitos.
Quem tinha carteira assinada pede ao INSS ou à empresa?
Depende de a carteira estar assinada no dia do parto. Com o contrato de pé, quem paga é a empresa, que depois desconta o valor do que recolhe ao INSS, e o pedido, segundo o INSS, é feito na própria empresa.
Se a empresa não pagou, a obrigação era dela. A cobrança contra o antigo patrão segue o prazo das dívidas do trabalho, fixado na Constituição: cinco anos, mas no máximo dois depois do fim do contrato.
Várias situações ficam com o INSS, que paga direto e segue o prazo de cinco anos: doméstica, avulsa, empregada de MEI, quem adota e quem estava desempregada no parto, como Débora. Vale o mesmo para quem nunca teve carteira assinada.
A análise olha para o dia do parto, não para hoje
O INSS não examina a sua vida de agora. Ele confere se, na data do parto ou da adoção, você tinha qualidade de segurada, ou seja, estava protegida pelo INSS. Quem estava tem o direito hoje do mesmo jeito, mesmo que tenha parado de contribuir depois.
Quem não estava protegida no nascimento, por outro lado, não ganha o direito começando a pagar depois que a criança nasceu.
Pelo artigo 15 da Lei 8.213, quem trabalhava registrada ou pagava como autônoma fica coberta por 12 meses depois da última contribuição, ou 24 com mais de 120 contribuições sem perder a proteção no caminho.
Somam-se mais 12 meses para quem prova que seguiu desempregada, pelo registro no Sine, o serviço público de emprego, ou pelo recebimento do seguro-desemprego, desde que nada mostre trabalho pago nesse meio tempo. A proteção pode chegar a 36 meses. A dona de casa que pagava como facultativa tem só 6 meses.
Uma exigência antiga caiu. A carência, que é o número mínimo de contribuições, era de 10 meses para autônoma, MEI, facultativa e trabalhadora rural. Depois da decisão do Supremo na ADI 2110, o INSS a dispensa em todo pedido feito desde 5 de abril de 2024.
A norma do INSS aplica a dispensa aos pedidos novos, qualquer que seja a data do parto. A roça também deixou de ter os 10 meses cobrados, como explica o texto sobre o salário-maternidade rural.
Pedir com atraso muda o valor?
Não muda o direito nem o número de dias. O que muda é a forma de receber: os meses que já passaram viram atrasados, e o regulamento da Previdência manda corrigir cada parcela paga com atraso pelo mesmo índice dos reajustes dos benefícios, desde o mês em que era devida.
O valor de cada mês segue a regra da categoria: o último salário de contribuição para a doméstica, um salário mínimo para a trabalhadora rural e, para autônoma, facultativa e desempregada, a média dos 12 últimos salários de contribuição em até 15 meses. O piso é um salário mínimo.
Entra na conta ainda o décimo terceiro do INSS, proporcional aos meses de benefício. A norma do INSS manda pagá-lo junto com a última parcela do salário-maternidade.
O que juntar antes de fazer o pedido
A papelada é a de sempre, mas o tempo passou. Procurar os papéis antes evita a exigência, que é o pedido de documento feito pelo INSS no meio da análise.
- certidão de nascimento da criança, ou a nova certidão da adoção ou o termo de guarda;
- documento de identidade, como RG, CIN, CNH ou carteira de trabalho, e o CPF;
- carteira de trabalho, termo de rescisão, carnês, guias pagas ou o extrato do MEI da época do nascimento;
- o CNIS, que é o extrato de tudo o que o INSS enxerga da sua vida de contribuição, para conferir se tudo aparece;
- comprovante do seguro-desemprego ou do registro no Sine, para quem precisa dos meses a mais de proteção;
- para quem trabalhava na roça, os papéis da época que mostram a lida no campo.
Guia paga que não aparece no extrato tem conserto: o CNIS com erro pode ser corrigido com o comprovante do pagamento, e vale fazer isso antes de pedir o benefício.
O que pode derrubar um pedido atrasado?
Nenhum dos pontos abaixo tira o direito de quem estava protegida no parto. São falhas de conta ou de prova, que se evitam conferindo antes:
- Contar o prazo pela idade arredondada do filho, e não pela data da certidão;
- Esquecer os meses extras do período de graça, como os 12 a mais de quem recebeu seguro-desemprego;
- Pagar guias depois do parto achando que cobrem a gravidez: pela norma do INSS, guia atrasada só mantém a proteção se foi paga antes do nascimento, em qualquer categoria;
- Esperar do INSS o que era da empresa e deixar passar os dois anos para cobrar o antigo patrão;
- Ter trabalhado durante os 120 dias: a lei condiciona o benefício ao afastamento do trabalho;
- O viúvo deixar para depois, quando o pedido dele precisa sair até o fim do benefício que seria da mãe.
Depois do pedido, o INSS tem 30 dias
A Lei 15.415, em vigor desde 26 de maio de 2026, deu ao INSS 30 dias, contados do pedido, para conceder o salário-maternidade que ele paga direto, sem diferença entre o pedido feito logo depois do parto e o feito anos depois.
Passado esse prazo, o benefício sai de forma provisória e automática, e a análise continua. Se no fim faltar requisito, o pagamento para, sem devolução do que foi recebido, salvo má-fé comprovada.
A carta de negativa, que o INSS chama de indeferimento, traz o motivo. Dá para recorrer no próprio INSS em 30 dias ou ir à Justiça, caminhos comparados em o INSS negou: recurso ou Justiça.
Segundo o INSS, quem teve o pedido negado só por falta de carência pode pedir de novo, se o filho ainda está dentro dos cinco anos.
E se os cinco anos já passaram?
Para aquele nascimento, não há mais parcela a receber, e um pedido novo vem negado, de acordo com a lei.
Antes de desistir, confira a data exata da certidão ou da decisão da adoção, e não a idade de cabeça. Veja também se você tinha menos de 16 anos no parto e se existe um filho mais novo, com prazo próprio correndo.
Quem pediu na época e recebeu negativa está em outra situação: ali a conversa é sobre recurso ou Justiça, com regras e prazos próprios.
Perguntas frequentes
Qual o prazo para dar entrada no salário-maternidade?
Cinco anos, contados do parto, da adoção ou do aborto não criminoso. Para a mãe com menos de 16 anos, a conta só começa no dia seguinte ao aniversário de 16. O viúvo que pede no lugar da mãe tem um prazo bem menor.
O salário-maternidade tem prazo decadencial?
Não. Prazo decadencial seria um limite que apaga o próprio direito de pedir. Uma medida provisória de 2019 criou um de 180 dias, mas ele ficou de fora quando ela virou lei. O que existe é a prescrição das parcelas, em cinco anos.
Dá para pedir salário-maternidade depois de 2 anos?
Sim, e também depois de 3 ou 4 anos. Tudo isso está dentro do prazo, e os 120 dias são pagos como atrasados, corrigidos pelo índice de reajuste dos benefícios.
O salário-maternidade paga os atrasados?
Paga. Quando o pedido vem depois dos 120 dias, todos os meses já venceram e entram como atrasados, corrigidos desde a data em que deviam ter sido pagos. O décimo terceiro proporcional entra na conta.
Posso pedir salário-maternidade antes do bebê nascer?
Pode, a partir de 28 dias antes do parto, com atestado médico específico para gestante. Quem estava desempregada no período de graça recebe a partir do nascimento.
Posso pedir salário-maternidade desempregada?
Pode, se o parto aconteceu dentro do período de graça, que é de 12 meses depois da última contribuição e pode chegar a 36. O INSS paga direto, e o prazo para pedir também é de cinco anos.
E se a empresa não pagou o salário-maternidade?
Quando o contrato estava de pé no parto, pagar era obrigação da empresa. A cobrança contra ela segue o prazo das dívidas do trabalho: cinco anos, limitado a dois anos depois do fim do contrato.
Posso pedir salário-maternidade mais de uma vez?
Uma vez para cada filho, cada um com o seu prazo. Gêmeos geram um benefício só, e a mesma adoção não gera benefício para duas pessoas.
Qual o prazo para pedir salário-maternidade sendo MEI?
O mesmo das outras mães: cinco anos, contados do parto. A MEI pede ao INSS, que paga direto, e desde 5 de abril de 2024 não se exige mais número mínimo de guias pagas.
Fontes oficiais
- Salário-maternidade: quem tem direito, carência e como pedir - INSS
- Solicitar salário-maternidade urbano, prazo de 5 anos - gov.br
- Pedidos novos depois do fim da carência (IN 188/2025) - INSS
- Lei 8.213/1991, artigos 15, 71 a 73-A e 103 - Planalto
- Lei 15.415/2026, prazo de 30 dias para o INSS - Planalto
- Lei 13.846/2019, conversão da MP 871 sem o limite de 180 dias - Planalto
- Decreto 3.048/1999, artigos 93, 93-A, 97, 120 e 175 - Planalto
- Instrução Normativa PRES/INSS 128/2022, artigos 184, 357, 358, 360, 591 e 619 - Diário Oficial da União
- Instrução Normativa PRES/INSS 188/2025 - Diário Oficial da União
- Portaria Dirben/INSS 1.132/2023, mãe com menos de 16 anos - Diário Oficial da União
- Constituição Federal, artigo 7º, inciso XXIX - Planalto
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